Semana Philip K. Dick - Parte 1- "Flow my tears"
"The basic tool for the manipulation of reality is the manipulation of words. If you can control the meaning of words, you can control the people who must use the words."(Philip K.Dick)
Na terça-feira, dia 16/12, o escritor de Ficção-Científica Philip K. Dick completaria 80 anos se estivesse vivo. Por isso, o blog começará uma série diária de posts tributos a esse que foi um dos autores mais visionários do gênero e em torno do qual até hoje cerca uma aura cult misteriosa. Vou postar alguns trechos do meu livro/capítulo da tese em que analiso a influência de PKD como um antecessor do que se convencionou chamar de cyberpunk e darei dicas sobre sites/blogs, filmes e documentários baseados na obra dele e finalmente dicas de músicas e bandas que se inspiraram em seus escritos.
Sou uma fã de PKD e durante meu doutorado-sanduíche nos Estados Unidos, pude me aprofundar sobre a vida e obra dessa carismático autor que se considerava muito mais um filósofo da FC do que um literato. Tentarei compartilhar, na medida do possível, materiais que sobraram da tese, devido ao seu recorte. Além de vários livros dele, também me afundei em pelo menos 6 biografias, cuja vida foi tão complexa, surrealista e distópica quanto seus escritos.
O que é real e o que é humano?
O estilo noir, a natureza da realidade (real e simulacros), a paranóia em relação aos estados totalitários, o estilo de vida outsider, o homem comum envolvido em tramas complexas, o caos, as drogas, as femme-fatales, a relação tecnologia-mágica-religião, o não-humano, empatia e a pervasividade tecnológica são alguns dos principais temas desse genial autor, que para muito além do "gênero FC" sua obra nos dá muitos subsídios para compreender a contemporaneidade e a própria gênese dos fenômenos ciberculturais. Sem contar que, se não fosse por PKD não teríamos um dos melhores filmes de todos os tempos: Blade Runner que foi baseado em sua novela Do androids dream of electric ship? (de 1968).
Vamos então às nossas primeiras dicas, já que falarei mais ao longo da semana sobre essas temáticas.
Biografia:
SUTIN, Lawrence. (1989). Divine Invasions. A life of Philip K. Dick. New York: Harmony Books. - O livro de Sutin é considerado a biografia oficial de PKD. Ao longo de 350 páginas - que devorei em um final de semana de nevasca - Sutin nos conduz pela intensa mundo do autor, desde seus traumas de infância até a morte, os 5 casamentos e suas mulheres de cabelos negros; muitas vezes relacionando os dados autobiográficos com as obras do período. O livro é excelente e já foi cogitado de ser traduzido para o português. Quem sabe em 2009 já que em 2008 muita coisa de PKD foi lançada por aqui... Um detalhe interessante sobre PKD é que ele era um fã incondicional de gatos, como vocês podem perceber na foto acima. Ele adorava a personalidade dos felinos.
Programa de Rádio e Blog:
Enquanto escrevo esse post escuto o ótimo programa Psionic Dehiscence que foi ao ar no dia 12/12 na rádio Pirate Cat Tune, 87.9 FM na área de São Francisco e que está disponível online nesse link. O programa contou com entrevista de Dave Gill, pesquisador da obra do autor da qual ele fala em seu blog Total Dick-Head. A dica foi da Boing Boing.
FC filosófica
PKD fez parte do que chamamos de New Wave of Science Fiction que se estabeleceu nos anos 60 como um contraponto à Hard SF, uma FC mais relacionada às questões existenciais e humanas do que à descrição da tecnologia. A influência da filosofia pré-socrática, dos gnósticos e metafísicos é bastante forte em sua obra. "Eu sou um filósofo ficcional e não um novelista, minha habilidade de escrita de novelas e estórias é empregada como um meio para formular minha percepção" (Dick apud Sutin, 1989, p. 13)
Música:
Um dos primeiros empregos de PKD foi em uma loja de discos. Ele era um grande fã de música (clássica, vanguardista e pop). Sua obra inspirou até uma ópera VALIS - falo mais sobre isso em um outro post. Uma série de bandas como Sonic Youth, Flaming Lips e um dos pioneiros do electro, o britânico Gary Numan, que vemos abaixo com a canção Are friends electric? (de 1979) totalmente inspirada em do androids...
PKD Award
Uma das coisas mais tristes e irônicas a respeito de PKD é que ele morreu sem ver sua obra aclamada pois teve um ataque do coração poucas semanas antes da estréia de Blade Runner em 1982, que o elevou ao status de autor cult. Logo após a sua morte foi instituído um prêmio para literatura de sci-fi em sua homenagem, o Philip K. Dick Award. Inclusive, em 84 Neuromancer de W.Gibson foi o ganhador desse prêmio. Infelizmente, PKD não sobreviveu para ver sua obra estudada por pesquisadores ao redor do mundo, há pesquisas sobre ele na França, na Itália, Portugal, EUA, Inglaterra e até no Brasil - também vou fazer um tópico acerca disso durante a semana.
Artigos e conto-tributo
* Dois artigos sobre PKD e um conto tributo.
1) O primeiro é de Jorge Martins Rosa da Universidade de Nova Lisboa, Portugal, chamado "Exegesis ou Ele está no meio de nós" , artigo em pdf, publicado na Revista Famecos, n. 34 de dezembro de 2007, sobre as conexões entre tecnociência e religião através da obra de Dick.
2) O segundo é um artigo meu de 2006 publicado como capítulo de livro da UFJF em 2008 e que finalmente disponibilizo online em pdf. Tem algumas diferenças em relação ao original do livro, mas foi o que eu achei. AMARAL, A. (2008). A dualidade mente e corpo na Ficção Científica, de Philip K. Dick ao movimento cyberpunk. In: L. AMARAL, A. GEIGER. (Orgs). In: In Vitro, In Vivo, In Silicio. São Paulo, Attar Editorial, p. 133-150
3) Para fechar esse primeiro e longo post, um conto-tributo à herança KDickiana, do escritor brasileiro Tibor Moricz, Do Humans dream of other realities? publicado na 3a edição da revista Terra Incógnita. Excelente maneira de homenagear os andróides pkdickianos.
Por enquanto era isso, aguardem mais postagens ao longo da semana PKD aqui no palavras e coisas.







4 comentários:
Gostei e aprendi um monte com o seu post. PKD, como vc o chama, é um cara muitíssimo interessante. O conhecia de orelhada. Blade Runner, o filme é o filme da minha vida, uma coisa da qual não me canso nunca. Este ano, fui encarar PKD e li a versão original, o livro. Fiquei encantado mesmo. A história de Deckard alcança outras dimensões... fantástico... maravilhoso... soberbo...
PKD é ótimo. Teve até uma maluca que fez tese de doutorado sobre a obra dele, imagine só!
ROGÉRIO: Que bom que gostaste de ler o Do androids, é uma das minhas novelas favoritas e se passa em apenas um dia dando uma dimensão totalmente joyceana às bucas de Deckard. Só em ritmo de desaceleração pra eu poder sentar e escrever um post longo desses com várias informações. Me sobrou horrores de material da tese que ainda nem compartilhei, aos poucos farei isso via blog e quem sabe em um próximo livro.
URUBUA: Dizem até que uma certa professora que participou foi muito elogianda na banca :)
Adri, sensacional sua idéia da Semana PKD. Já estou divulgando!
http://www.verbeat.org/blogs/posestranho/2008/12/philip-k-dick-80-anos.html
Beijo,
Fábio
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